Lipoproteína(a) [Lp(a)]: o Fator de Risco Genético para Infarto que Muitas Pessoas Não Conhecem
- Dr. Daniel Nunes

- 9 de abr.
- 3 min de leitura

A lipoproteína(a), também chamada de Lp(a), tem ganhado destaque na cardiologia moderna como um dos mais importantes fatores de risco genético para infarto, AVC e doença arterial coronariana.
Diferentemente do colesterol tradicional, a Lp(a) é fortemente determinada pela genética e, por isso, não depende do estilo de vida — o que torna sua avaliação fundamental em muitos pacientes.
Mesmo assim, grande parte da população nunca ouviu falar dela.
1. O que é a Lp(a)?
A lipoproteína(a) é uma partícula semelhante ao LDL (“colesterol ruim”), mas com uma característica especial: possui uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a), que altera seu comportamento no organismo.
Essa estrutura confere à Lp(a):
maior capacidade de penetrar nas artérias
maior potencial inflamatório
maior risco de formação de placas instáveis
propensão a trombose
Por isso, pessoas com Lp(a) elevada apresentam risco aumentado de eventos cardiovasculares mesmo com colesterol LDL normal.
2. Lp(a) elevada é hereditária
Ao contrário do LDL, que pode ser modificado por dieta, exercícios e medicamentos, a Lp(a) é quase totalmente determinada pelos genes.
Seu valor se mantém relativamente constante ao longo da vida.
Não é alterado significativamente por alimentação, atividade física ou estatinas.
Por isso, uma única dosagem ao longo da vida é suficiente, exceto em situações especiais.
Cerca de 20% da população apresenta Lp(a) elevada — muitas vezes sem saber.
3. Como a Lp(a) aumenta o risco de infarto?
A Lp(a) atua por múltiplos mecanismos que favorecem doença coronariana:
1. Acelera a aterosclerose
Por ser altamente aterogênica, deposita-se com facilidade na parede das artérias, favorecendo o desenvolvimento de placas.
2. Torna as placas mais instáveis
Placas ricas em Lp(a) são mais propensas a ruptura — principal mecanismo do infarto.
3. Tem efeito pró-trombótico
A apolipoproteína(a) se assemelha ao plasminogênio, interferindo nos mecanismos naturais de dissolução de coágulos.
4. Favorece inflamação vascular
A inflamação aumenta a progressão e a instabilidade da doença.
Por esses mecanismos, indivíduos com Lp(a) elevada podem sofrer infarto mais cedo e mesmo na ausência de fatores de risco tradicionais.
4. Quem deve medir a Lp(a)?
As diretrizes sugerem dosagem pelo menos uma vez na vida, principalmente em:
Pessoas com histórico familiar de infarto precoce
Pacientes com doença coronariana sem fatores de risco clássicos
Pacientes com LDL persistentemente elevado
Pacientes com estenose aórtica calcificada
Pacientes com infarto ou AVC de repetição
Pessoas com hipercolesterolemia familiar
Indivíduos com histórico pessoal ou familiar de Lp(a) elevada
A dosagem é simples, feita por exame de sangue.
5. Qual é o valor normal de Lp(a)?
Os pontos de corte variam conforme a sociedade científica, mas consideram-se:
Normal: < 30 mg/dL
Aumentado: 30–50 mg/dL
Alto risco: > 50 mg/dL
Muito alto risco: > 100 mg/dL
Acima desses valores, recomenda-se intensificação da prevenção cardiovascular.
6. Como tratar Lp(a) elevada?
Atualmente, não existe um medicamento amplamente disponível aprovado especificamente para reduzir Lp(a) — mas isso está mudando rapidamente.
O que podemos fazer hoje?
1. Reduzir o risco global com controle agressivo dos outros fatores
LDL deve ser reduzido de forma mais intensiva
Maior vigilância de pressão, glicemia e peso
Uso precoce de estatinas, ezetimiba ou inibidores de PCSK9 quando indicado
2. Inibidores de PCSK9
Reduzem a Lp(a) em aproximadamente 25–30%. São úteis em pacientes de muito alto risco.
3. Novas terapias específicas
Estão em fase avançada de estudo:
Pelacarsen (antisense therapy)
Olpasiran (siRNA)
SLN360
Essas drogas reduzem a Lp(a) em até 80–90% e devem mudar o cenário da prevenção cardiovascular nos próximos anos.
7. E a relação com estenose aórtica?
Altos níveis de Lp(a) também estão associados à progressão acelerada da estenose aórtica calcificada, podendo antecipar a necessidade de intervenção como TAVI ou cirurgia.
Conclusão
A Lipoproteína(a) é um dos principais fatores genéticos de risco para infarto, muitas vezes negligenciado. Sua elevação não depende do estilo de vida e exige atenção especial, sobretudo em pessoas com histórico familiar de doença cardíaca precoce.
Medir a Lp(a) uma única vez — e tomar medidas preventivas quando necessário — pode evitar eventos graves e orientar estratégias mais precisas de proteção cardiovascular.
Fontes
European Society of Cardiology (ESC) – Guidelines on Dyslipidemia.
American College of Cardiology (ACC) – Lp(a) as a Risk-Enhancing Factor.
AHA Scientific Statement – Lipoprotein(a) and Cardiovascular Risk.
Journal of the American College of Cardiology (JACC) – Updates on Lp(a) and novel therapies.
Circulation – Lipoprotein(a): Pathophysiology and Clinical Implications.
New England Journal of Medicine – Trials on antisense therapies targeting Lp(a).




Comentários